Design como Engenharia

“Não somos artistas, somos engenheiros” – quem já visitou o nosso site ou falou connosco, já ouviu esta frase. Este artigo foi escrito com o propósito de aprofundar tal afirmação e simultaneamente explicar uma parte da metodologia de trabalho, utilizada pela equipa da Noraya.

Este artigo começa por expor o objetivo do design como uma ferramenta para resolver problemas, não sendo ideias ou imagens mas sim um processo. Seguido de exemplos práticos de empresas e casos de referência que o utilizam, como: Nike, Pepsi e McKinsey. Posteriormente, apresenta uma definição geral sobre o termo “engenharia” e como este se interliga com a de Design (delimitada anteriormente), de modo a perceber como este se pode considerar uma. Concluindo com uma explicação sobre o porquê de a nossa equipa ter optado por utilizar este método na sua framework.

Definir Design

Para perceber a ligação entre Design e uma Engenharia é preciso ter definido o que é em si o Design. Esta área de conhecimento, há semelhança de outras, é relativamente recente não tendo uma data certa desde a sua primeira primeira utilização. Existem vários artigos que tentam datar e definir este termo, mas não existe na comunidade científica um consenso para apenas uma definição, pois trata-se de um terreno complexo, onde facilmente uma proposta pode se equiparar à arte ou à engenharia.

Um estudo bastante interessante para a definição deste termo vem da autoria do jornalista e filósofo Checo, Vilém Flusser, que no seu livro A Forma das Coisas: Uma filosofia do Design, nos primeiros capítulos Sobre a Palavra Design após definir as derivações e origens etimológicas das palavras Design, Machine, Tecnology, e art faz a seguinte ponderação:

“As palavras design, máquina, tecnologia, ars e arte estão intimamente relacionadas entre si, sendo um termo impensável sem os outros, e todas derivam da mesma visão existencial do mundo. No entanto, esta conexão interna foi negada por séculos (pelo menos desde o Renascimento). A cultura burguesa moderna fez uma divisão nítida entre o mundo das artes e o da tecnologia e das máquinas; portanto, a cultura foi dividida em dois ramos mutuamente exclusivos: um científico, quantificável e “duro”, o outro estético, avaliativo e “suave”. (…) Na lacuna, a palavra design formou uma ponte entre os dois. Pode fazer isso, pois é uma expressão da conexão interna entre arte e tecnologia. Assim, na vida contemporânea, o design indica mais ou menos o local onde a arte e a tecnologia (junto com suas respectivas formas avaliativas e científicas de pensar) se unem como iguais, tornando possível uma nova forma de cultura.”

 

Apesar do autor não se ficar apenas por esta definição, continuando o seu raciocínio na sua obra, neste ponto já é apresentada uma base para perceber as relações entre estas áreas.

Em toda a definição do termo Design, o campo onde a maioria da comunidade científica tende a concordar, trata-se do objetivo deste. Sendo dos mais falados em livros, artigos e até mesmo apresentado como a própria definição na maioria das escolas e universidades do mundo: “Resolver problemas”. Sendo uma área com um propósito delimitado, para o alcançar existe um proceso e método, uma componente de praticalidade, associada à ciência (o lado mais “duro” segundo Flusser). Relativamente ao mais “Suave”, no seu wesite (Set. 2020), a escola francesa de design Strate apresenta uma explicação sobre o mesmo: “… Arte é criar algo que expresse a visão, ideias e sentimentos do autor. Embora os designers possam expressar sentimentos e deixar impressões no seu trabalho, fazer isso não é o objetivo principal…”

 

Sendo assim, a definição de Design que vamos considerar neste artigo é uma junção da informação das diferentes fontes, que se complementam:

Uma área metódica que se destina ao serviço e à solução de problemas, aplicando conhecimentos entre a componente de criação científica e o impacto deixado nas pessoas.

 

O processo de Design

Ao analisar a definição anterior, o processo de Design ou Design Thinking como também é chamado, trata-se da metodologia que torna o design a área capaz de fazer a ponte entre a criação (máquina/ciência) e o homem (emoção/arte), daí ser muito associado à usabilidade um dos ramos crescentes no mercado da era digital. A baixo, apresenta-se dois gráficos que mostram o paralelismo entre o método científico e o de Design, que são por vezes confundidos, pois são semelhantes mas com propósitos diferentes:

 

 

Segundo a Science budies (Set. 2020), o método de Design Thinking é cada vez mais usado na área de engenharia – como o “Processo de Engenharia” – pois apresenta características que correspondem às necessecidades desta área, melhor que o científico:

Os cientistas usam o método científico para chegar a explicações e previsões ​​sobre o mundo. Um cientista faz uma pergunta e desenvolve uma experiência, ou conjunto, para responder a essa pergunta. Os engenheiros usam o processo de engenharia para criar soluções para problemas. Um engenheiro identifica uma necessidade específica: Quem precisado quê e por quê? E então, cria uma solução que atende à necessidade.”

Com esta definição do processo, fazendo o paralelismo entre Design e Engenharia, ambos se conectam em termos de objetivo: resolver problemas. De seguida vamos analisar casos práticos onde este processo é implementado, para potenciar e perceber melhor como estas áreas se podem relacionar noutros aspetos.

 

Casos aplicados

1) Começando por analisar primeiro o Design Thinking na Nike, vamos olhar para um caso em específico e já estudado: O mercardo do skateboarding e a sua entrada. Desde 1972  que a nike tentou entrar neste com algum volume de vendas mas sem um sucesso aparente, até que em 2002, com a linha Nike SB Shoes conseguiu.

Esta linha foi desenhada por uma equipa de designers que utilizaram a metodologia de Design Thinking: onde definiram o seu objetivo, contrataram para a equipa profissionais envolvidos no skate para a sua pesquisa, e seguiram o processo até à fase de lançamento no mercado em 2002, sendo que em 2004 já era datada como um sucesso tremendo. (Informação retirada do artigo de Brandon Gomez, agosto de 2012, que explora todo o processo).

 

2) Ao analisar o caso da Pepsi, numa entrevista feita por Ignatius Adi publicado no site da Harvard Business Review à CEO da pepsi Indra Nooyi, estes falam em como a sua empresa há uns anos estava a perder cota de mercado e como esta, acabou por dar a volta em 2012 com a contratação de Mauro Porcini, como chefe do gabinete de Design.

Nesta entrevista Nooyi fala sobre como até ao ano, a empresa nunca se tinha focado em design nem na experiência de utilizador e que a maioria dos diretores nem percebiam o conceito de Design, falando apenas de packaging. Desde então, com o suporte de Porcini, o processo da  pepsi tornou-se design thinking e começou por envolver “desde a concepção ao que se encontra na prateleira até à experiência pós consumo”.

Esta nova abordagem gerou “mais de $200 milhões em dois anos, algo muito complicado nesta área”. E segundo Nooyi de momento todas as equipas da empresa utilizão design thinking no seu processo.

 

3) Para terminar a análise, a McKinsey tem no seu website um estudo sobre 300 empresas galardoadas em design, que durante cinco anos aumentaram substancialmente as suas receitas, comparadas aos seus concorrentes. O estudo denota que em termos de valores as companhias que são excepcionais a aplicar os métodos de design, crescem ao dobro do ritmo da concorrência.

 

Definir Engenharia

Para concluir este artigo, falta perceber o conceito de engenharia. Segundo o ECPD (American Engineers’ Council for Professional Development) definiu engenharia como sendo:

“A aplicação criativa de princípios científicos para projetar ou desenvolver estruturas, máquinas, aparelhos ou processos de manufatura, ou trabalhos utilizando-os isoladamente ou em combinação; ou para construir ou operar o mesmo com pleno conhecimento de seu projeto; ou para prever o seu comportamento sob condições operacionais específicas; tudo no que diz respeito a uma função pretendida, economia de operação e segurança à vida e à propriedade.”

Segundo o delimitado anteriormente, os pontos comuns entre design e engenharia são: a partilha do mesmo objetivo (solução de problemas), a metodologia utilizada ser semelhante, se não igual e a aplicação prática de conhecimentos. Sendo que nesta última, o conhecimento científico é imperativo para a engenharia não o sendo para o design. Para terminar ambos se focam também na usabilidade e fatores direcionados ao utilizador, sendo aqui que se encontra simultâneamente a diferença entre ambos.

A experiência sensível.

Enquanto a preocupação de usabilidade da engenharia se foca na utilização e proteção do utilizador e meio, o Design necessita de envolver as restantes influências da sua criação e ideação. Desde a parte prática, à interpretação, percepção e impacto psicológico, as características que ao mesmo tempo o podem levar a ser confundido com arte.

Ao analisar os casos aplicados, entra a última vertente desta definição: a praticalidade do mercado. O mercado exige como objetivo resultados e soluções, igual à engenharia. Deste modo para se poder aplicar o Design no mercado, este que tem de preservar a sua componente sensível (para manter o seu valor), mas ser principalmente direcionado no mesmo sentido que a engenharia.

 

“Não somos artistas, somos engenheiros”

Chegamos então à conclusão do artigo. A nossa equipa optou por adotar uma visão do design focada na resolução metódica de problemas: utilizando a componente artística (sensível) como um meio para potenciar o objetivo (criação) e não como uma finalidade. Daí afirmar-mos que “Não somos artistas, somos engenheiros” (apesar de termos de conciliar e adquirir o conhecimento de ambos).

Há semelhança de um engenheiro, a nossa função é resolver os problemas dos clientes e criar soluções, mas nunca esquecendo que lidamos com pessoas e não com máquinas.

 

 

Fontes:

Gomez, Brandon, “How Did Nike Get the Swoosh into Skateboarding? A Study of Authenticity and Nike SB”, Syracuse University, Agosto, 2012.

Flusser, Vilém, “Uma Filosofia do Design: A forma das coisas”, Relógio D’Água, Março de 2010.

Lidwell, Will, “Principios Universais do Design”, Bookman, Novembro 2010.

Ignatius, Adi, “How Indra Nooyi Turned Design Thinking Into Strategy: An Interview with PepsiCo’s CEO”, Set 2020 – https://hbr.org/2015/09/how-indra-nooyi-turned-design-thinking-into-strategy

Interaction Design Foudation, “Design Thinking, Essential Problem Solving 101- It’s More Than Scientific”, Set 2020 – https://www.interaction-design.org/literature/article/design-thinking-essential-problem-solving-101-it-s-more-than-scientific

Kirkey, jennifer, “Engineering and Technology in Society – Canada”, Set 2020 – https://pressbooks.bccampus.ca/engineeringinsociety/

McKinsey, How Design Drives Growt, Set. 2020 – hhttps://www.mckinsey.com/business-functions/mckinsey-design/how-we-help-clients

Science Buddies, “Steps of the Scientific Method”, Set. 2020 – https://www.sciencebuddies.org/science-fair-projects/science-fair/steps-of-the-scientific-method

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Bernardo Santos
Co-Founder/COO

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